Eddy Tricerri
O que sabemos de nós mesmos – Eddy Tricerri, releituras e colagens
— NUNCA SEI SE ME COLOCO COMO BRASILEIRA OU ITALIANA… Esta frase displicente e aparentemente ingênua foi dita por Eddy em uma de nossas conversas. Ela tem uma personalidade expansiva, comunicativa e esse foi sempre o tom de sua presença ao longo de anos (e já se vão 30 primaveras desde que conheci seu trabalho). Estar com ela é sempre sujeitar-se a um fluxo contínuo de ideias, memórias e referências, e quase sempre muita coisa do que é dito corre freneticamente a nos escapar como cenas de um filme. Contudo, a frase que se destaca não passou despercebida. É uma dúvida referente a um de seus títulos: — CHI SEI? (Quem é você?). Mesmo arriscando qualquer resposta, a força dessa expressão está mesmo em manter-se relevante enquanto pergunta, lançada inconsequentemente no ar. É ela quem demonstra a vitalidade e o sentido poético de tudo feito por Eddy, que segue se questionando, se afirmando e se transmutando, aos 86 anos de idade.
Para uma geração que viveu, desde a Guerra, a pressão de ter que se afirmar pelo princípio do país de origem, essa pergunta já é, em si, uma resposta: — Eu não sei o que sou, mas já não sou apenas italiana, como desde pequena me acostumei a ver. Mesmo sem sabermos o que é ser plenamente brasileiro – como alguns de nós acreditamos – é necessário perceber ali outras tantas crenças postas em cheque. Ser chamada de italiana, brasileira, artista, mãe, pintora, mulher, louca são todas circunstanciais possibilidades… ou tão somente nenhuma delas.
Abrindo-se para o campo da arte – como obviamente proposto –, a pergunta nos insere automaticamente – pelo princípio da alteridade – para dentro de sua obra, em infinitos meandros de desejos, sonhos, signos e possibilidades. Não significa estarmos ali de corpo presente retratados em “nossa” São Paulo, nossas origens ou nossas memórias. São justamente as memórias do outro, no caso da artista, que nos provocam essa estranha sensação e nos levam a pensar: “Quem é?”.
Eddy nasceu na Mooca, tradicional reduto de imigrantes italianos em São Paulo, em 1937, e isso nos dá algumas pistas. Naquele momento, o Projeto Modernista deflagrado pela Semana de 22 tentava ainda se afirmar como Movimento no qual, entre outras propostas, buscava sintetizar uma nova identidade, outras imagens formadoras de uma nova estética a dar conta de um país já transformado por toda novidade aqui aportada. Poucos historiadores atentam ao fato de que, morto prematuramente em 1945, Mario de Andrade não viveu o suficiente para ver assentado seu ideário na plenitude de “certezas” como as encontramos hoje. Tampouco Anita e Tarsila chegaram a reconhecer, em vida, a consagração de suas obras. Isso, porém, não impediria que as novas gerações – incluída a de Eddy – se sucedessem, absorvendo e expressando tamanhas e indeléveis transformações. Novos movimentos, muitas escolas, outros desafios, novos tabus, dos quais ainda se destaca o papel do artista enquanto mulher. Desde então, Dalvas e Leilas, Clarices e Fernandas, Bethânias e Marielles, tantas “Marias, Marias” se sucederam…
Poucos percebem a complexidade desses processos, sua natureza incerta e errática feita de lutas inglórias, muita resiliência e (ainda) poucos sucessos. Disso nos testemunham a literatura, o teatro e a canção, mas é neste cenário que também foram gestados percursos plásticos de pintoras mulheres como Eddy Tricerri, cuja profunda compreensão da plenitude da vida entre a “casa e o mundo” demanda ainda tempo para sua consagração. E se isso ocorre no plano macro da história, não é diferente no âmbito pessoal da subjetividade de uma artista. Muitas ficaram pelo caminho, traídas, martirizadas, ou enredadas na mera obsolescência de histórias que não eram as suas; soterradas pela carga alheia como quem carrega um baú de imagens que não lhes pertencia, muitas vezes pela urgente necessidade de simplesmente sobreviverem! Mas não Eddy. Nela o essencial não é o que (simplesmente) ficou, e sim aquilo que elege e arbitrariamente destaca. Aquilo que a seu bel prazer lhe dá o desejado significado. Tão simples, mas tão difícil para uma artista mulher, ainda mais raro aos 86 anos.
Mesclar-se de influências, referências e afinidades é parte desse processo de amadurecimento, tal como faz a semente até chegar ao fruto. E foi nesse caminho de sobreviver às próprias memórias (fazendo-as sobreviverem) que Eddy faz-se sobrevivente, construindo seu percurso poético, cujo imaginário não poderia espelhar senão reflexos fugazes de demandas da casa e da euforia vital do apelo do mundo. Reflexos sim, não estilhaços.
Eddy nos conta sua própria história e com total orgulho se faz nela a desejada protagonista. Com a liberdade de nem sempre valer-se de conjunções e linearidades, ela passeia aos sobressaltos entre pitorescos episódios de seu cotidiano: das incertezas, em meio à recente pandemia, aos vestidos de infância, dos filhos e netos já crescidos, ao namoro com Sinde desde o Colégio. Como haikais justapostos quase sem conectivos, porém, potencialmente significativos. Quem de nós tem o privilégio dessa lucidez, liberdade e tamanha inventividade, trazendo a memória acompanhada da consciência presente do momento? Como não reparar seu sorriso largo, sua gargalhada sonora, seus gestos ágeis entre cabelos vermelhos. Nem todos somos assim, daí a necessidade que temos de cuidar dessa obra, para nela nos espelharmos.
Das muitas lições que Anita Malfatti nos legou, ficaram famosas as ousadias das formas e o arroubo das cores que tanto revolucionaram a arte na gênese modernista brasileira. Mas, como acontece com quem viveu os arroubos e turbulências da juventude, das verves de ruptura com tudo e com todos, das rebeldias naturais com ou sem causas, é sabido que o mais difícil e o mais valioso, passado o heroísmo das cisões e enfrentamentos que desbastam os alicerces das crenças e conceitos, passam a ser o perene. Aquilo que se planta e se é responsável por cultivar no solo arrasado pelo tempo e suas revoluções. É isso o que, justamente, nem sempre carrega de glamour o legado deixado para as subsequentes gerações. Feito de dores caladas, de retratações e conciliações, de amizades sinceras, de paixões e inocências perdidas… a curta duração da vida de nós indivíduos, assim como as transições da longa duração da história, tem como paralelo o significativo e valioso processo artístico do que permanece no presente, passando a importar no contraste com o que se perdeu.
Superado o enfrentamento, o mais importante é o que se é no momento, quando a quase ninguém interessa defender, mesmo porque, difícil de se perceber e compreender em toda sutileza. O lírico, o intimista, só são sentidos quando universalizados, mas quem o sabe? Quem a isso se conecta está também em meditação, no profundo e silencioso sentir das coisas ao seu redor. Em Eddy, por sorte nossa, isso se percebe por haver nela uma personalidade naturalmente extrovertida, até histriônica, de atriz quase farsesca.
Muitos acharam que sua ingênua figuração não condizia com a arte contemporânea, mas isso já é passado. Suas fantasias de si mesma se projetam nas muitas máscaras de todos grandes artistas que nela habitam: Botticelli, Picasso, Klimt, Morandi, entre outros. Na Pauliceia do ontem e do sempre, na Mooca de Cavallermaggiore, nos objetos da casa, em quintais de seu bucólico Tremembé. A obra de Eddy é ela. Nela tudo lhe pertence, tudo é feito a seu modo, figurando à sua maneira a família que a transcende, sua infância ainda presente, sua Itália que só nela vive, seu tempo que somente dela emana.
Apenas superficialmente ingênua, toda a obra de Eddy – e mais especificamente a série que aqui se apresenta – está diretamente ligada a uma profundidade filosófica que nos remete ao aforismo grego “Conhece-te a ti mesmo” e a socrática “Só sei que nada sei”, a reminiscências do “Decifra-me ou te devoro”, como necessidade vital da busca pelo conhecimento que nos mobiliza e nos afasta da morte pela ignorância. Nessa série, ecoa também a shakespeariana “Ser ou não ser” como questão fundamental no desvendar da consciência ontológica de si mesmo perante o mundo e seus dilemas. Eddy se afirma o tempo todo como pessoa e personagem, nos autorretratos e nas autorreferências fugidias, que a circunstanciam e dela escapam, a definem ao mesmo tempo em que tentam aprisioná-la, com as quais luta tendo que com elas conviver sem se deixar limitar.
Permeada de um feminino que é mulher não só em figuras, mas também em sua inquietante linguagem, nela tudo circunstancialmente nos atravessava, sem deixar de saber que isso também importa, hoje, sabermos. Não sepultemos Eddy no silêncio a que condenamos Anita, na incompreensão e no preconceito que dela se tem por sua singeleza, seu lirismo, sua feminina subjetividade que não podendo ser mais eloquente, íntima que é, clama por conexão e por um sincero e humano acolhimento.
Gilberto Habib
Eddy Tricerri
Aquariana, nasci em São Paulo, a 4 de fevereiro de 1937. Casei, tive cinco filhos e sete netos.
Sempre gostei de ler, escrever e desenhar.
Fiz Neolatinas na PUC e mais tarde Artes Plásticas na FAAP. Lecionei, fui curadora, fiz exposições no Brasil e exterior.
Participei da XIV Bienal de São Paulo, 1977, e Bienal Latino Americana, 1978.
Frequentei ateliês de Artes Plásticas, Aquarela e Gravura com artistas consagrados.
Recebi prêmios e artigos de Críticos de Arte renomados.
Tenho obras em acervos nos museus do Brasil e exterior.
Meu álbum de gravura, “Retratos Gravados”, sobre
imigração italiana, minha origem, está no acervo do MASP
(sob tombo nº 6.690).
Atualmente trabalho com aquarela, gravura, colagem,
recortes e releituras, resgatando momentos poéticos afetivos.
Antenor Antônio Gonçalves Filho
Mineiro de Areado, licenciado em filosofia pela Universidade de São Paulo – USP (1964). Mestre em Filosofia da Educação pela mesma instituição (1976), com a dissertação Euclides da Cunha e seu ideal de formação humana. Doutorou-se em Filosofia e História da Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de Campinas – UNICAMP, com a tese Língua portuguesa e a fragmentação da práxis cultural. Foi professor de Filosofia da Educação e supervisão escolar na Faculdade de Filosofia e Ciências – UNESP, Campus de Marília.
Desenvolveu trabalhos no programa de pós-graduação em Educação nesta instituição fazendo estudos sobre educação e literatura. Foi diretor efetivo de escola pública, ministrou aulas de língua portuguesa em escolas de contabilidade comercial. Desenvolveu cursos de capacitação profissional em gerenciamento de escolar em várias instituições técnicas de capitais de estado pelo órgão do MEC – CENAFOR. Participou por um ano (janeiro/dezembro/1977) como convidado da École des Hautes Études em Sciences Sociales, Paris, por convite da Équipe Fonctions Imaginaires e Sociales des Artes e de Littératures, dirigida por Jacques Leenhardt. O tema da sua pesquisa foi uma análise comparativa entre os livros Os miseráveis, de Victor Hugo, e Os Sertões, de Euclides da Cunha – dois expoentes da literatura da miséria.
Publicou os livros: Poesias, Mestre Jou; Principalmente o sol, Mestre Jou; Memorial Paixão e Morte de Fulana de Tal, Scortecci; O Peregrino Scortecci; Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, Cortez (1990); Educação e literatura, DP&A (2000); Percepções, Editora De Castro, 2016; A montanha da solidão azul, Editora De Castro (2017); O homem do pôr do sol, Editora De Castro (2018).
Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo (1993), Mestre (2009) e Doutora (2015) em Direito pela mesma instituição, com especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (2011). Trabalha como advogada desde 1994, tendo atuado, por 17 anos, em escritórios de médio e grande portes, nos consultivo e contencioso civil (especialmente em contratos), com questões de direito societário, mercado de capitais, operações de reorganização societária e de finanças estruturadas, bem como em transações imobiliárias.
Em seguida à experiência adquirida junto aos escritórios, há cerca de 11 anos tem atuado na criação e gestão de departamentos jurídicos corporativos, nas indústrias de geração de energia elétrica e de construção de infraestruturas para telecomunicações, aprofundando seus conhecimentos técnicos e ampliando para áreas como governança corporativa, compliance e regulatório de energia e de telecomunicações.
Foi professora da Escola Superior da Advocacia (ESA-SP), entre 2001 e 2002, na matéria de Prática em Processo Civil, bem como assistente de professor na matéria Direito Privado I e II, na Faculdade de Direito da USP, durante o ano de 2007.
Autora do livro Responsabilidade civil nas atividades de risco: um panorama atual a partir do Código Civil de 2002 (editora Arte & Ciência, 2011, 256p – ISBN 978-85-61165-71-0), com artigos publicados em diversas revistas e periódicos físicos e eletrônico, dentre os quais Infraestrutura de suporte, lei de antenas e provocações (Revista Internacional de Direito Ambiental, vol. 17, maio/ago 2016); Aplicação do Código de Defesa do Consumidor aos usuários dos serviços públicos: análise das relações com as concessionárias de distribuição de energia elétrica (capítulo do livro Direito Privado Administrativo, de autoria de Maria Sylvia Zanella Di Pietro, editora Atlas, 2013, p. 101- 121); A dignidade e a solidariedade para com o zigoto (embrião) humano extra-uterino: uma nova acepção de entidade familiar? (Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM, vol. 2, fev/mar 2008).
Andréa Silva Rasga Ueda
Formada em Pedagogia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul em 1993. No período ministrou aulas na modalidade de Educação Infantil, Ensino Fundamental e matérias pedagógicas no Curso de Magistério, e, em 1992, iniciou atividades na área de Educação Especial, tendo atuado em instituições especializadas em deficiência intelectual, a saber: Sociedade Pestalozzi de Campo Grande e Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais, instituição esta que é referência na área no Estado do Paraná.
Concluída a Especialização em Educação Especial pela Universidade Estadual de Londrina/PR, em 1995, cujo trabalho de conclusão referiu-se à Comunicação de Pessoas Portadoras de Paralisia Cerebral através de Tabloides. Em 1995, iniciou suas atividades na Secretaria de Educação de Mato Grosso do Sul, exercendo a função de técnica na área de Educação Especial, realizando avaliação psicopedagógica de alunos com deficiências, encaminhamento aos serviços especializados, orientação e capacitação aos professores de ensino regular e especial, acompanhamento nas áreas de deficiência intelectual, auditiva, física, condutas típicas e altas habilidades.
Em 2001, cursou Especialização em Psicopedagogia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2000, atuou como professora e coordenadora da Classe Hospitalar na Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande/MS. Em 2004, assumiu a função de Técnica de Educação Especial na Secretaria de Educação de Mato Grosso do Sul, e, em 2005, foi nomeada Coordenadora das Classes Hospitalares de Mato Grosso do Sul, cargo ao qual ainda permanece exercendo.
Foi Conselheira do Conselho Estadual da Pessoa com Deficiência (CONSEP), na gestão 2005-2007. Em 2005, concluiu o curso de Mestrado em Educação na Universidade Católica Dom Bosco, cuja dissertação gerou a obra intitulada Escolas inclusivas, práticas que fazem diferença, publicada pela Editora UCDB. Em 2012, concluiu Doutorado em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, quando defendeu a tese Diálogos entre Educação e Saúde sobre os processos de aprendizagem e desenvolvimento de crianças nascidas pré-termo.
É professora do Curso de Pós-Graduação em Educação Especial e Psicopedagogia do Instituto Libera Limes de Educação, em Campo Grande/MS, desde 2005. Desde o ano de 2000, é Membro-Secretária da Associação Pró-Atendimento Pedagógico Educacional Hospitalar da Região Centro-Oeste. É Supervisora de Estágio em Educação no Projeto Prematuridade/Baixo Peso da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, desde 2008. Em 2013, cursou Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo, cuja instituição se encontra conveniada à Universidade de Lisboa/Portugal.