A gestão escolar e seus problemas

O perfil do diretor escolar

 

As políticas públicas voltadas para a seleção do diretor de escola devem ter como objetivo primordial traçar o perfil de um diretor-educador, de um diretor que não se deixa contaminar pelo marasmo de um burocrata-assina-papel, e muitas vezes um funcionário a desempenhar o ridículo papel empobrecido de office boy de delegacia de ensino. O diretor de escola é um líder da comunidade, e que envolve professores, pais de alunos e os próprios alunos. É ele que vai buscar na comunidade recursos humanos, materiais e financeiros para transformar a escola num centro irradiador de ensino de qualidade.

É importante ter sempre a noção de que a educação é um dever de todo mundo, inclusive do Estado, mas não só do Estado. Criar um Círculo Familiar de Pais para colaborar na organização e manutenção da escola; propiciar a organização de um Conselho de Alunos, oriundos entre seus pares de lideranças indicadas por professores, auferidas entre os melhores avaliados pela conduta exemplar ou por notas. Devem partir dos próprios alunos medidas exemplares de limpeza e manutenção da escola. É inadmissível o quadro de uma sala de aula suja, carteiras quebradas, sem que nada seja feito para responsabilizar seu usuário-aluno. E isso não deve ser feito por punição “exemplar”, mas por um processo educativo que envolva o aluno a ele próprio a zelar pela manutenção de sua sala de estudos. Esse ato é mais educativo que a leitura de belos trechos de ética e moral comportamental. Envolver o aluno em campanhas educativas tais como organização de teatros, gincanas culturais ao estabelecer contatos com escritores, artistas plásticos, musicistas, líderes comunitários, campanhas de arrecadação de livros para a biblioteca da escola, e outras. Superar a idéia falaciosa que estas atividades vão desviar a escola de sua função precípua, que é o ensino. Pelo contrário, uma vez bem planejadas envolvendo toda a comunidade escolar, ela só vai despertar no aluno o prazer de aprender alguma coisa que valha a pena para sua vida. Precisamos ganhar o aluno para a escola, e não fazer dela um gueto sombrio e triste.

Recomenda-se, como prática de gestão escolar (juntos diretor e professor), organizar um mapa da escola dividido em duas partes: um Mapa Físico e um Mapa Função. No Mapa Físico, registrar todas as divisões internas da escola e o que contém nelas: carteiras, mesas, material de laboratório, biblioteca, corredores, escadas, banheiros, quadras para jogos, teatro, secretaria, sala de estar dos professores, sala da direção e outras. A importância desse Mapa Físico é ter sempre à disposição os materiais que nele contém e que medidas são necessárias para dar suporte a melhorias. O Mapa Função tem por objetivo indicar qual é a função da escola no que diz respeito à formação do aluno no meio da comunidade. A escola existe para formar alunos para que e para quem? Formá-lo para o mercado de trabalho (escola técnica), ou para as chamadas profissões liberais? Que tipo de relação a escola mantém com as outras agências sociais que se situam em torno dela: um clube esportivo, um cinema, um teatro, uma casa assistencial de crianças carentes, uma praça de lazer, uma casa de exposição artesanal, uma fábrica de tecnologias onde se propiciam estágios supervisionados; as casas onde moram médicos, artesãos, pintores, líderes comunitários, igrejas assistenciais, etc. O Mapa Função abre os portões da escola para o mundo e indica que o processo educativo é sim um processo sem fronteiras definidas, mas para serem descobertas. A agência escola deve compor uma constelação de outras agências onde também se vinculam indiretamente práticas educativas, como um clube particular que poderia ser procurado para um trabalho conjunto com a escola na formação de atletas; a casa de um pintor plástico – o poeta da harmonia e beleza das cores -, que às vezes mora ao lado da escola, que deveria ser convidado para uma exposição de seus quadros. Quando a escola procura desempenhar o papel de educadora de moral e cívica, nada como ela estabelecer, por contato planejado e permanente, com uma casa de assistência a menores desfavorecidos e fazer sua campanha de agasalhos em época de frio, de alimentos, e até de visitas de alunos que deverão conhecer também um ambiente educativo, levando a eles música, pequena apresentação teatral com leituras de poemas, trechos de grandes obras literárias. Por que não estimular visitas a casas de adultos abandonados por suas famílias e “vivendo” ao abrigo da solidão irremediável – justamente aqueles que um dia os jovens de hoje serão amanhã?

Para cumprir com metas deste porte, é preciso “desburocratizar” o papel de diretor e situá-lo no interior e exterior da escola, desenhando o perfil de um líder cujo papel é trazer a comunidade participativa para a escola, fazer a escola girar no interior da comunidade. É preciso que o nosso sistema de ensino reveja a formação de um gestor escolar. Um líder educativo não se forma no interior de faculdade de educação (pode até atrapalhar por excesso de teorias mal digeridas e desvinculadas da realidade escolar), mas numa longa prática docente que favoreça a ele as condições teóricas e objetivas para movimentar no interior da escola e na comunidade escolhas de práticas culturais que têm muito a ver com planos de ensino, com práticas docentes prenhes de significado para a formação do aluno. Quando se diz que o fim da educação é formar cidadãos livres, como é que o professor atua para demonstrar que sua prática de ensino é libertadora? Todo professor diria, sem pestanejar, que ele é um guardião da liberdade. Mas e o que ele transmite ao aluno, ensina-o a ser um cidadão livre? Pelo menos uma base teórica sobre o perfil de um líder deve servir de orientação para a ação educativa do diretor.

Uma pequena incursão teórica que sustente a ação do diretor tem dois núcleos de sustentação: a função baseada em normas legais, que fornecem a ele sua autoridade representativa no interior do micro sistema de ensino; e a função educativa, que é buscada em sua prática docente e nos manuais de grandes pensadores da educação – Rousseau, Freinet, Pestalozi, John Dewey, Anísio Teixeira, Paulo Freire. As normais de ordem legal (Regimento Escolar, Estatuto de Servidor Público, as Leis e Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientações e diretrizes de apoio à ação administrativa, e que devem ser lidos e estudados em conjunto em seus pontos principais – direção e professores. Ninguém vai escrever sobre os Fins da Educação Nacional, estes já estão contemplados na Lei, mas estudá-los e verificar como os objetivos da educação da Escola e em sua sala de aula estão ligados a esses fins. É importante que leis e normas sejam compartilhadas a fim que a função-direção não seja investida no papel de lobo mau e seu chapeuzinho vermelho – o professor.

Quanto à função educativa, exige-se do diretor como líder da escola e da comunidade, uma visão de conjunto da educação, uma visão que tem como endereço um compromisso político com a vida escolar. Alguns autores analisam a questão do compromisso político em educação, distinguindo-o de um comprometimento político partidário. Há um corte entre o ato político, que é o de vencer, e o ato educativo, que é o de convencer. Alguns autores direcionam a análise para um ato revolucionário situado fora da escola a fim de caracterizar o compromisso político num ato de extrema adesão política. Uma sociedade injusta, diriam, só pode gerar uma escola injusta, e, em decorrência, o dever do educador é primeiro lutar fora da escola para reverter o processo. Diante dessas duas posturas, a impressão que fica é que o ato político em si é um ato pervertido se não for um ato educativo, e este é vazio se não for um ato político. A questão complica quando sabemos que houve políticos de partido que foram grandes educadores de civilização.

Como ficamos?

Penso que uma saída é, antes de nos situar na questão do valor político da educação, nos situar na própria questão do valor. E isto para ficar claro que a questão do valor – moral e ético -, é o centro de toda ação educativa. Quando falamos de valores somos sempre levados a distinguir os limites entre o ser e o dever-ser. Numa frase simplificadora: o ser é o que somos, mas não sabemos muita coisa (o ser é nada); o dever-ser é o que pretendemos ser (nossos perfis, projetos, sonhos, utopias) e que pensamos que sabemos muito bem, mas não conseguimos chegar facilmente até lá (o dever-ser é tudo). O dever-ser é o nosso ponto ômega, nossa estrela-guia e, como diziam os antigos, a nossa catedral de vidro cuja importância e realidade é nos ensinar a construir pelos menos choupanas. Embora hoje a tendência é não mais acreditar na possibilidade de um fundamento absoluto para os valores morais, para o dever-ser, a consciência desse dever-ser – consequência moral -, por mais paradoxal que pareça, não é algo para além dos muros de nossas vidas, está presente na consciência social, nas condições materiais da existência social. Está embutida em nosso quotidiano e não há pensamento humano que não seja um sentimento, uma decisão (de-cisão, corte), uma escolha. É muito difícil admitir que um homem faça suas escolhas – uma profissão, uma viagem, um partido político – por questões de abstração teorética, mas sempre foi e será por questões de valores vividos e compartilhados. Por isso a adesão por uma ideologia religiosa, por uma ideologia política, não nos faz menos responsáveis pelos meus atos, a ponto de me inocentar e possíveis crimes, porque um crime é sempre um crime e não importa em nome de quê. As sombras das ideologias ou os castelos de mármore dos partidos políticos não têm tanto alcance para me esconder. São sombras que se desfazem, fortalezas que se esboroam na história e nos deixam nu na consciência moral dos homens. E não adianta pedir desculpas para as vítimas assassinadas em virtude de minha opção de valor, porque os mortos não têm porta-vozes. Pouco importa à Escola pedir desculpas a centenas de alunos fracassados, porque não há retorno num processo educativo mal conduzido.

E aqui entra a questão do compromisso político em educação. O compromisso político é o dever-ser da educação. Se existe na vida algo comprometido com a noção de valor, este é a educação. Ela permeia todos os nossos atos, do nascimento à morte e podemos afirmar sem receio de equívoco que se não houver um ambiente educativo que sustente a vida humana, esta não seria possível. Jean Piaget já nos chamou a atenção para este aspecto. Observemos o nascimento de uma criança: se não existisse um ambiente de proteção materna – uma educação -, a criança não sobreviveria. É certo que o ensino de uma educação não se compõe apenas do favorecimento de comunicados normativos. Formar homens que dominem a matemática, uma ciência, e sua própria língua, é ensinar a perceber o significado social do conhecimento, um conhecimento mediante o qual a sociedade cobra o nexo entre seus meios de sobrevivência e o valor inerente a eles. A base moral e ética – o compromisso – está inerente a todo processo educativo. O problema às vezes é que ela está tão interna, que passa a ser despercebida ou quase sempre escamoteada pelo chamado “discurso competente” das pedagogias de importação, ou ainda, por uma visão ingênua da neutralidade pedagógica. Não se pede que a educação para ser um ato político seja comprometida por qualquer coisa. Compromisso político com a educação é um ato de escolha e supõe a decisão de integrar esse compromisso político com uma competência técnica que a viabilize. Não se pode exigir que uma professora ame a seus alunos (compromisso político) sem as condições objetivas (competência técnica) para esse ato. Sem competência técnica esse amor é discriminatório, nulo, e tem a função perversa de marginalizar o aluno ao colocar uma falsa pedagogia da piedade. O político e o técnico são categorias pedagógicas de uma mesma função. Competência técnica e compromisso político são exigências de um pensamento e prática unificadores e condição para a formação do chamado homem integral.

Enfim, o nosso discurso talvez oculte o secreto desejo de dar conta de tudo. Sabemos que não se pode colocar a montanha no quintal de nossa casa, mas podemos nos preparar melhor para uma viagem em seu redor. E essa viagem começa com a tentativa de não perder de vista o horizonte humano do dever-ser da educação. Porque o verdadeiro compromisso político com a educação é sempre um compromisso ético. A adesão humana a esta ou àquela forma de vida é sempre uma adesão à forma de vida política, de estar e conviver com os outros na cidade – na polis, diziam os gregos -, onde as relações sociais são regidas por leis, normas, por atos civilizatórios de convivência e mesmo de sobrevivência. Os jovens que depredam a sua cidade são os mesmos que não receberam uma educação que integrou em seu ambiente de vida. Ao agredir seu próprio meio, ele agride o ambiente que não o acolheu pela educação.

Dezenas, centenas, milhares de professores têm suas histórias e compromissos anônimos, mas sempre, mesmo que ocultamente, estão ligados pelos compromissos não-anônimos que tanto podem constituir avanços ou nossa própria derrota.

É comum afirmar-se que um líder não se faz, nasce. Trata-se de um equívoco a ser recusado. O que constatamos é que há uma prática de liderança no interior de nossas escolas, no amplo universo social da família, da política, nos mais diversos setores das organizações sociais. Não se pode esperar que todo diretor de escola seja um líder nato – um ser carismático capaz de animar ações não impositivas, e que esteja plenamente preparado a serviço de tudo. Baseado apenas em seu bom senso, ele poderá descobrir que há no interior de sua escola lideres na figura de professores, que poderão ajudá-lo em atos educativos sem afetar sua autoridade. Se o diretor percebe que não tem “poder” de liderança, pode ao menos ser um animador de lideranças. E quem ganha é a escola e ele próprio. Há professores animadores fadados a organizar gincanas esportivas; outros a promover e abastecer a biblioteca da escola; alguns a suprir o recreio escolar com a divulgação de música clássica; aqueles que trabalham pela aparência saudável (limpeza) da escola quando promovem a presença de grupos de alunos focados nessa bonita atividade educativa (Um parêntesis: por que o aluno não pode limpar sua sala de aula? O Estado é obrigado a manter funcionário para um fim que é daqueles que vivem na escola?  Não se diz que a escola é uma extensão da família, e esta permite que seus filhos sujem a sua casa?) etc. Tudo isso não interfere nas atividades de ensino de sala de aula, pelo contrário, pois é onde a educação se apresenta e motiva o aluno a respeitar sua escola e a descobrir o mundo. É importante frisar que estas atividades não devem surgir aleatoriamente, mas de modo planejado, e sempre com a supervisão do diretor.

É importante que o sistema administrativo escolar ofereça assistência e um monitoramento constante ao diretor de escola. A administração de uma escola vai além de seu muro, porque escola não é um gueto de faz-de-conta, mas onde alunos e professores se reúnem com seus sonhos, fantasias, contradições, desentendimentos, sucessos, derrotas, conflitos abafados e explícitos – tudo o que compõe a geografia humana de nosso vasto mundo.

E o papel do professor na gestão escolar? Devemos preservá-lo exclusivamente em seu papel de ensino? Seria importante que ele desse apenas aulas, sobretudo se conseguisse dar boas aulas? Mas não é o que acontece principalmente porque a escola só funciona bem quando todos que ocupam seu espaço – desde serventes, escriturários, inspetores de alunos, os próprios alunos, direção e professores, além de cumprirem bem cada função específica, estão ligados, quer percebam ou não, aos objetivos de ensino e educação da sua escola. Os fins e os objetivos da educação expressos em lei sustentam e dão sentido ao papel do professor e a todos aqueles que trabalham na escola. Os fins da educação dão muita ênfase ao princípio da liberdade. Uma gestão escolar integrada entre direção e professor vai se amparar nesse princípio balizador de formação de cidadania e deixar no ar a permanente inquietação: até que ponto as práticas de ensino preservam em seu núcleo a formação de um homem livre, pleno de orgulho de sua condição? Ao professor cabe perguntar: o método de ensino que aplico em minhas aulas garante a aprendizagem da liberdade?

Há muitas maneiras de participação do professor na gestão escolar – zelar pela disciplina escolar e outras, como: ser membro da Associação de Pais, acompanhar atividades recreativas, coordenar núcleos de disciplinas, orientar alunos com problemas de disciplina, estimular atividades culturais ligadas às artes em geral, assistir a direção quando convocado para dar parecer sobre a solução de problemas administrativos. Convocar o professor a fim de participar da gestão escolar é uma maneira de resgatar sua auto-estima tão desgastada por inúmeros fatores inerentes ao seu trabalho sem prestígio medido pelo fator dinheiro. Apesar das dificuldades que pesam sobre ele, o professor continua sendo o centro da educação. Foi com surgimento da Escola Nova a partir da década de 30 que se deslocou a idéia de centro da educação no aluno. Foi uma grande mentira. O centro da educação é o professor. O aluno é a matéria viva a ser acolhida e trabalhada pelo professor na medida em que assume o papel de ensiná-lo a desenvolver seu potencial de conhecimento e destreza.

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